Paralamas do Sucesso celebra 40 anos de ‘Selvagem?’ no Doce Maravilha

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O álbum que reinventou o rock brasileiro será apresentado na íntegra no festival carioca em agosto de 2026, em uma noite que promete reunir gerações.

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⏱️ Em 5 segundos:

  • Os Paralamas do Sucesso sobem ao palco do Doce Maravilha no dia 9 de agosto para celebrar os 40 anos de ‘Selvagem?’
  • O show será dedicado à íntegra do terceiro álbum de estúdio, considerado divisor de águas na história do rock nacional
  • ‘Selvagem?’ incorporou reggae, dub, ska e ritmos afro-brasileiros, abrindo caminho para movimentos como o Manguebeat
  • Faixas como ‘Alagados’, ‘A Novidade’ e ‘Melô do Marinheiro’ devem fazer parte do repertório no Jockey Club Brasileiro
  • A turnê coincide com o lançamento do festival Doce Maravilha 2026, que também recebe Caetano Veloso, Emicida e Falamansa

Quando os Paralamas do Sucesso subirem ao palco do Doce Maravilha na noite de 9 de agosto, não será apenas mais uma apresentação de rock nacional — será uma declaração viva de que ousadia artística não envelhece. A celebração dos 40 anos de Selvagem?, terceiro álbum de estúdio do trio, chega em um momento em que a música brasileira precisa lembrar de onde veio para entender para onde vai. E poucos discos carregam essa responsabilidade com tanta naturalidade quanto este.

Lançado em 1986, durante o período de redemocratização do Brasil, Selvagem? surgiu em um país que tentava costurar suas feridas políticas e culturais. Depois de consolidar uma reputação sólida com Cinema Mudo (1983) e O Passo do Lui (1984) — álbuns que levaram a banda ao primeiro Rock in Rio e transformaram ‘Óculos’ em hino geracional —, Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone decidiram que não faria sentido repetir a fórmula que os havia consagrado. A parceria com o produtor Liminha foi o catalisador dessa ruptura, aproximando o trio da música negra produzida no Brasil, no Caribe e na África, e afastando-os definitivamente da influência predominante da new wave britânica que havia marcado seus trabalhos iniciais.

O processo criativo por trás de Selvagem? foi meticuloso. Durante meses de ensaios intensos antes de entrar no estúdio, os membros da banda buscaram uma linguagem própria, mergulhando em referências que iam do dub jamaicano ao carimbó, do ska às tradições afro-brasileiras. As viagens de Herbert pelo Norte e Nordeste do país ampliaram sua percepção sobre as desigualdades brasileiras, e essa visão se traduziu em composições que abordavam violência, racismo, pobreza e autoritarismo com uma rara coragem para o rock nacional da época. A letra de ‘Alagados’, por exemplo, trocou os conflitos pessoais por um retrato contundente da desigualdade social, enquanto ‘A Novidade’, parceria com Gilberto Gil, criou um contraponto devastador entre a festa e a fome.

O impacto de Selvagem? vai muito além de uma coleção de canções brilhantes. O disco rompeu barreiras entre gêneros e antecipou movimentos que só ganhariam força anos depois, como o Manguebeat pernambucano liderado por Chico Science e Nação Zumbi. Ao demonstrar que era possível fundir rock, reggae, pop africano e MPB sem perder força comercial, os Paralamas abriram um precedente que influenciou toda uma geração de artistas interessados em misturar tradições musicais brasileiras com a energia do rock. Quatro décadas depois, a sonoridade do álbum permanece surpreendentemente atual — o que diz mais sobre a atemporalidade do trabalho do que sobre qualquer modismo contemporâneo.

Do ponto de vista da carreira do trio, Selvagem? representa o momento em que os Paralamas deixaram de ser uma banda de rock com influências externas para se tornarem uma voz genuinamente brasileira. As faixas que nasceram nesse álbum — ‘Alagados’, ‘A Novidade’, ‘Melô do Marinheiro’, ‘Teerã’, ‘Selvagem’, ‘A Dama e o Vagabundo’ e a releitura de ‘Você’, de Tim Maia — continuam entre as canções mais executadas e mais reconhecíveis do repertório do grupo. No show do Doce Maravilha, a apresentação dedicada na íntegra ao álbum promete resgatar essa fase com uma energia que, dada a maturidade do trio, deve ganchar camadas emocionais adicionais que o álbum original, por sua natureza urgente, não pôde explorar totalmente.

A escolha de celebrar Selvagem? no Doce Maravilha não é casual. O festival, que acontece no Jockey Club Brasileiro no Rio de Janeiro, reúne um line-up que dialoga com a diversidade cultural que o próprio álbum defende: de Falamansa a Caetano Veloso e Emicida, passando por Sandra Sá — que também comemora 40 anos de seu álbum de estreia no mesmo domingo. Essa programação cria um ecossistema perfeito para celebrar a fusão entre rock, música negra e tradição brasileira que Selvagem? consolidou. Os Paralamas do Sucesso sobem ao palco às 19h, e a expectativa é que a noite seja uma das mais memoráveis da edição 2026 do festival. Depois dessa celebração, fica a certeza de que o legado do álbum continuará alimentando novas gerações de músicos e ouvintes que, como Herbert, Bi e João nos anos 1980, entendem que a melhor música nasce quando se tem coragem de cruzar fronteiras — tanto sonoras quanto culturais.

Curiosidade Vibermix

💡 Você sabia que Herbert Vianna, vocalista e guitarrista dos Paralamas do Sucesso, sobreviveu a um acidente de avião em 2006 na Mauritânia que mudou sua vida para sempre — mas ele nunca abandonou a banda e continuou gravando e fazendo shows com o trio, provando a resiliência que também marcou a trajetória do grupo desde os anos 1980.


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— Douglas W.