Vibermix Semanal: Melhor da Musica Eletronica — 23 a 26 de Fevereiro

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Foi uma semana intensa na cena eletronica brasileira e internacional, daquelas que a gente sente o pulso acelerar a cada nova notificacao no feed. Entre remixes que resgatam a alma de classicos eternos, parcerias que cruzam geracoes e lancamentos que ja nascem prontos para a pista, o periodo de 23 a 26 de fevereiro entregou material de sobra para manter a caixa de som ligada do amanhecer ao amanhecer. Acompanhei cada movimento de perto, selecionei o que realmente importa e trago agora o resumo fiel do que agitou nossos radares.

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O clima geral foi de reverencia ao passado com olhos no futuro. Artistas consolidados como Joris Voorn e Solomun mostraram porque seguem como referencias absolutas ao reinterpretar obras que moldaram a historia da musica de danca, enquanto nomes em ascensao como Silas UK e Against All Ødds provaram que a nova geracao tem identidade propria e fome de pista. No Brasil, a conexao entre o eletronico e a raiz cultural ganhou um capitulo especial com Mozambo, Maz e Martinho da Vila — um encontro que so a nossa cena sabe proporcionar com tanta verdade.

Prepare o fone, ajuste o volume e vem comigo. Esta edicao do Vibermix Semanal vai te guiar pelos pontos de ebulicao, pelas surpresas geladas e pelas faixas que vao ditar o ritmo dos proximos dias. Bora la.

Termometro da Semana

🔥 Solomun reinventa Nina Simone com respeito e ousadia — ★★★★★

O remix de “Feeling Good” nao e apenas uma re-leitura: e uma aula de como honrar a origem enquanto injeta DNA de pista. A atracao principal da Diynamic mostrou que o segredo esta no equilibrio entre reverencia e risco.

❄️ Saturacao de remixes de classicos dos anos 90 — ★★☆☆☆

Embora o de Joris Voorn para Ferry Corsten brilhe, a enxurrada de revisitas a hits trance do passado comeca a cansar. Falta ousadia para ir alem do óbvio em muitos casos.

🔥 Mozambo, Maz e Martinho da Vila: o Brasil que a gente ama — ★★★★★

“No Embalo da Vila” e a prova de que a musica eletronica nacional atinge seu auge quando dialoga com nossas raizes sem complexo de vira-lata. Samba, house e historia se entrelacam com naturalidade.

❄️ Falta de diversidade de generos nos grandes lancamentos da semana — ★★☆☆☆

House e techno dominaram quase que totalmente o radar. Onde estao o breakbeat, o electro, o downtempo e as experimentacoes de borda que enriquecem a cena?

🔥 Silas UK estreia no Toolroom com “Drumba” e ja chega gigante — ★★★★★

Uma faixa que respira pista, com groove afiado e energia contagiante. O selo de Mark Knight acertou em cheio ao abrir as portas para esse talento britanico.

❄️ EPs colaborativos com muitos nomes e pouca identidade — ★★☆☆☆

O trabalho do Against All Ødds com Paul Anthonee e DJ AroZe ate funciona, mas a multiplicidade de vozes as vezes dilui a personalidade artistica. Menos pode ser mais.

Do vinil ao clube: Mozambo revela bastidores da parceria com Maz e Martinho da Vila em 'No
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Against All Ødds lança EP “Space Between Us” em parceria com Paul Anthonee e DJ AroZe
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Joris Voorn entrega remix repleto de frescor para clássico atemporal de Ferry Corsten
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Solomun transforma clássico da Nina Simone em hino da pista com remix de tirar o fôlego
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Silas UK Arrasa no Toolroom com o Novo Hit ‘Drumba’
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A semana comecou quente na quinta-feira, dia 23, com dois lancamentos que ja anunciavam o tom dos proximos dias. Solomun, um dos nomes mais influentes da house music mundial, entregou seu remix para “Feeling Good”, classico imortalizado na voz de Nina Simone. Quem acompanha a trajetoria do bósnio-alemao sabe que ele nao mexe em monumento a toa. O resultado e uma faixa que mantem a alma jazzistica e a dramaticidade vocal da original, mas constroi ao redor uma arquitetura de pista sofisticada: baixo profundo, percussao cirurgica e uma progressao que hipnotiza sem pressa. Ouvi em loop, fechei os olhos e entendi porque ele segue como atracao principal nos clubs mais exigentes do planeta.

No mesmo dia, o britanico Silas UK desembarcou no Toolroom com “Drumba”, faixa que resume em cinco minutos tudo que uma apresentacao de peak-time pede: energia bruta, groove infeccioso e aquela sensacao de que a pista vai explodir a qualquer segundo. Mark Knight nao assina qualquer coisa, e a escolha por Silas diz muito sobre o momento que o produtor vive. A faixa transita entre tech house e techno com uma fluidez rara, daquelas que so quem vive de madrugada em madrugada consegue imprimir. Ja anotei no caderno: esse nome vai aparecer muito nos line-ups dos grandes festivais europeus no verao.

A sexta-feira, dia 24, trouxe o encontro de titas do trance progressivo. Joris Voorn, mestre holandês da sutileza melodica, assumiu a responsabilidade de remixar “Out of the Blue”, um dos hinos mais sagrados da discografia de Ferry Corsten, lancado la em 1999 sob o alias System F. O risco era enorme: mexer em faixa que define uma epoca inteira exige coragem e, acima de tudo, compreensao do que a torna atemporal. Voorn nao decepcionou. Seu toque e cirurgico — preserva a melodia central que todo mundo canta de cor, mas reconstrói a base ritmica com texturas contemporaneas, synths etereos e uma dinamica que faz a faixa respirar em 2024 sem perder a identidade de 1999. Ouvi na integra tres vezes seguidas e a cada passada descobria um detalhe novo. Isso e trabalho de artesao.

O sabado, dia 25, reservou as surpresas mais brasileiras e colaborativas da semana. Comecemos pelo EP “Space Between Us”, do projeto Against All Ødds em parceria com Paul Anthonee e DJ AroZe. Tres nomes, tres bagagens, um so lancamento. O resultado e um trabalho coeso, transita entre melodic house e progressive com elegancia, faixas que funcionam tanto no warm-up quanto no momento de transicao para o pico. “Space Between Us” (a faixa-titulo) carrega uma melancolia dançavel, daquelas que fazem o coracao apertar enquanto o corpo pede movimento. Paul Anthonee traz a sensibilidade melodica, DJ AroZe injeta o groove afro-latino que ja virou sua assinatura, e Against All Ødds costura tudo com producao impecavel.

Mas o momento mais especial do sabado — e talvez de toda a semana — veio de casa. Mozambo, um dos produtores mais visionarios da cena nacional, revelou os bastidores de “No Embalo da Vila”, parceria com Maz e nada menos que Martinho da Vila. Ler a entrevista e entender o processo foi um daqueles momentos que renovam a fe na musica eletronica brasileira. Nao e sample jogado por cima de beat, nao e apropriacao vazia. E um dialogo genuino entre geracoes: o samba de raiz do mestre Martinho encontra a sintese eletronica de Mozambo e a ponte rítmica de Maz, criando algo que so poderia nascer aqui. A faixa pulsa com a historia do samba, a cultura de rua, a malandragem carioca e, ao mesmo tempo, soa absolutamente contemporanea, pronta para qualquer club de Berlim a Tokyo. Isso e identidade. Isso e futuro.

Ao longo desses quatro dias, o que ficou claro e que a cena esta em um ponto de inflexao interessante. De um lado, os grandes nomes seguem ditando regras e mostrando como se faz — Solomun, Joris Voorn, Ferry Corsten (mesmo na posicao de remixado) provam que longevidade se constroi com curiosidade e humildade diante da propria historia. De outro, a nova geracao — Silas UK, Against All Ødds, Mozambo — nao pede licenca, chega com linguagem propria e entende que a pista e lugar de risco, nao de replicacao segura.

O termometro da semana reflete essa tensao saudavel. O quente brilha onde ha verdade artistica, seja na reinvencao respeitosa de um classico do jazz, seja na fusao organica entre samba e house, seja na estreia avassaladora num selo de peso. O frio aparece onde a formula vicia: a avalanche de remixes de trance noventista que nao agregam nada novo, a saturação de um unico espectro sonoro nos grandes lancamentos, a colaboracao por colaboracao que dilui identidades em vez de potencializa-las. Cabe a nós, que vivemos e cobrimos essa cena, separar o joio do trigo e apontar para onde a musica realmente pulsa.

E o pulso esta forte. Cada vez nas ruas do Rio, nos studios de Amsterda, nos clubs de Berlim, nos laptops de produtores que acordam as 3 da manha com uma ideia na cabeca. A musica eletronica nao para, nao pede desculpas e nao olha para tras — a nao ser para buscar inspiraçao e transformar em algo novo. Essa semana foi a prova viva disso.

O Que Ta Bombando

🔹 Solomun — “Feeling Good (Solomun Remix)”

O remix da semana, sem duvida. Pegar “Feeling Good”, uma das composicoes mais interpretadas da historia da musica popular, e entregar uma versao que honra Nina Simone enquanto soa 100% Solomun e tarefa para poucos. A faixa abre com a voz inconfundível da diva, nua, crua, emocionante. Aos poucos, o baixo entra — redondo, profundo, daqueles que vibram no peito. A percussao e minimalista, cirurgica, cada hit no lugar exato. O segredo esta no espaço: Solomun nao preenche todos os vazios, ele deixa a musica respirar, cria tensao pelo silencio, pela expectativa. Quando o drop chega, nao e explosao, e revelacao. A melodia do piano, a corda sustentada, tudo converge para um momento de catarse coletiva na pista. Ja vi videos de apresentacoes recentes dele em Tulum e Ibiza onde a multidão canta junto, de olhos fechados, como se estivesse em uma missa laica. Isso e poder de atracao principal. Isso e house music no seu estado mais nobre: emocional, fisico, transcendental.

🔹 Mozambo, Maz & Martinho da Vila — “No Embalo da Vila”

Se existe uma faixa que define o momento da musica eletronica brasileira em 2024, e esta. Mozambo vem construindo uma obra que dialoga com nossas raizes sem cair no folclore facil. Ao lado de Maz, DJ e produtor que transita entre o afro house e o techno com uma personalidade unica, e de Martinho da Vila, um dos maiores cronistas musicais do Brasil, nasceu algo que transcende genero. A faixa nasceu de encontros reais: studio, conversa, violao, sampler, historia de vida. O samba de Martinho nao foi sampleado de disco antigo — foi gravado agora, para esta faixa, com a mesma vitalidade de sempre. A producao de Mozambo envolve essa voz com synths quentes, percussao orgânica eletronica, um groove que e inegavelmente brasileiro mas fala a lingua universal da pista. O resultado e uma faixa que funciona no club underground de São Paulo, no after de Berlim, na roda de samba da Lapa. Raro. Precioso. Necessario.

🔹 Joris Voorn — “Out of the Blue (Joris Voorn Remix)” [System F / Ferry Corsten]

Remixar um classico do trance e caminhar sobre corda bamba sem rede de protecao. Joris Voorn cruzou o abismo com a elegancia de quem nasceu para isso. A melodia principal — aquele riff de synth que definiu o som de Ibiza no fim dos anos 90 — permanece intocavel, sagrada. O que Voorn faz e reconstruir o mundo ao redor dela. O kick e mais seco, o baixo mais redondo, os hi-hats tem swing, a atmosfera e mais densa, cinematografica. Ele tira a pressa da versao original, alonga a jornada, convida o ouvinte a entrar na faixa e nao apenas ouvi-la. Em clubs, o efeito e hipnotico: a pista reconhece a melodia, sorri, fecha os olhos e se entrega a uma viagem que dura oito minutos e parece durar uma vida. Ferry Corsten aprovou publicamente, e nao poderia ser diferente. E a passagem de bastao mais bonita que vi nos ultimos tempos: o mestre do trance classico abencoando a nova roupagem do mestre do melodic house. Duas geracoes, uma mesma lingua.

🔹 Silas UK — “Drumba” [Toolroom]

Estreia no Toolroom nao e para qualquer um. Mark Knight construiu um imperio baseado em qualidade, groove e faro para talento. Silas UK chegou la com “Drumba”, uma faixa que resume o melhor do tech house britanico atual: baixo roliudo, vocal picotado funcionando como percussao, stabs de synth que cortam o ar como navalha, e uma estrutura pensada para o DJ trabalhar — intro longa, break tenso, drop libertador. A faixa tem aquele «je ne sais quoi» das producoes UK: swing, atitude, suor. Nao e musica para ouvir parado. E musica para sujar o tenis, perder a noção do tempo, sair do club as 6 da manha com a alma lavada. Silas tem 27 anos, vem de Bristol, bebeu na fonte do bass music, do garage, do house de Chicago, e sintetizou tudo em um som proprio. Aposto que “Drumba” vai figurar nos tops de final de ano da Mixmag, Resident Advisor e DJ Mag. Anotem.

🔹 Against All Ødds, Paul Anthonee & DJ AroZe — EP “Space Between Us”

Tres artistas, um EP de quatro faixas, uma identidade colectiva que surpreende pela coesao. Against All Ødds (projeto do portugues Rui Vargas) traz a arquitetura, a solidez, o desenho de som impecavel. Paul Anthonee injeta a melodia emotiva, aquele toque de melodic house que faz o coracao acelerar. DJ AroZe, brasileiro radicado em Portugal, adiciona o tempero afro-latino, a percussao orgânica, o calor do sul global. Juntas, as faixas formam uma narrativa: “Space Between Us” abre o EP com melancolia dançavel, “Inner Light” eleva a energia com arpejos brilhantes, “Roots” mergulha no afro house profundo, e “Horizon” fecha com uma sensacao de amanhecer, de ciclo completo. E daqueles EPs para ouvir do inicio ao fim, sem shuffle, de preferencia em uma apresentacao longa de warm-up a peak-time. O selo (ainda nao divulgado na materia) acertou em apostar nessa quimica. Colaboracoes assim — onde cada parte brilha sem ofuscar a outra — sao o futuro da cena.

O Que Ouvir Esta Semana

  • Solomun — Feeling Good (Solomun Remix) (melodic house / deep house) — “A aula magistral de como remixar um classico intocavel com reverencia e identidade propria.”
  • Mozambo, Maz & Martinho da Vila — No Embalo da Vila (afro house / samba house) — “O encontro de geracoes que so o Brasil poderia parir: samba de raiz e eletronico de ponta em perfeita sintonia.”
  • Joris Voorn — Out of the Blue (Joris Voorn Remix) (melodic techno / progressive) — “O respeito pela historia do trance aliado a visao contemporanea de um dos maiores artesãos da cena.”
  • Silas UK — Drumba (tech house / techno) — “Estreia avassaladora no Toolroom: groove britanico afiado, energia de peak-time e assinatura sonora ja definida.”
  • Against All Ødds, Paul Anthonee & DJ AroZe — Space Between Us (melodic house / progressive house) — “Colaboracao a tres que funciona como uma so voz: emotiva, dançavel e coesa do inicio ao fim.”
  • Ferry Corsten — Out of the Blue (original 1999) (trance / progressive trance) — “O classico que originou o remix da semana: essencial para entender a magnitude do trabalho de Joris Voorn.”
  • Nina Simone — Feeling Good (original 1965) (jazz / vocal) — “A fonte inesgotavel: ouça a versao original para dimensionar a ousadia e o cuidado do remix de Solomun.”
  • Martinho da Vila — Canta, Canta, Minha Gente (1974) (samba / MPB) — “Mergulhe na discografia do mestre para sentir a raiz que alimenta “No Embalo da Vila”.”

— Douglas W.

A semana que se encerra deixa um recado claro: a musica eletronica mais viva e aquela que nao tem medo de olhar para tras, desde que o faca para construir algo que ainda nao existe. Solomun, Joris Voorn, Mozambo, Silas UK — cada um a seu modo, provaram que reverencia nao e estagnação, e combustivel. Na proxima edicao, vou trazer o que rolou nos bastidores do Carnaval eletronico brasileiro, os lancamentos que vao ditar o tom de marco e uma entrevista exclusiva com um nome que esta redesenhando o mapa do techno sul-americano. Fiquem ligados. O Vibermix nao para. A pista tampouco.