A DJ e produtora fluminense transforma anos de pesquisa em Dona Sinistrus, nova persona que mistura ancestralidade, techno e a busca pelo equilíbrio sonoro.
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⏱️ Em 5 segundos:
- Kenya20hz lança nova persona Dona Sinistrus após anos pesquisando música eletrônica.
- O projeto une techno, dubstep, electro e psytrance com ancestralidade africana e narrativas sonoras.
- A DJ explica o equilíbrio entre curadoria e produção musical na nova fase.
A música eletrônica brasileira ganha um novo capítulo marcado pela introspecção e pela busca sonora mais profunda. Kenya20hz, um nome já consagrado na pesquisa de graves profundos, surpreende ao anunciar o nascimento de Dona Sinistrus. Mais do que um simples alter ego, a nova persona representa a materialização de anos de imersão em ritmos que vão do techno ao psytrance, passando por uma profunda reflexão sobre ancestralidade e identidade. É a DJ e produtora fluminense finalmente encontrando a voz que ela tanto pesquisou.
O grave que não é só um som
Se no início da carreira os 20 hertz representavam principalmente uma preferência estética, hoje ganharam um significado mais amplo. “Hoje em dia, eu entendo que esse som do grave não é somente um som. Ele é uma sensação”, resume Kenya. É justamente essa ideia que conduz Dona Sinistrus. Em vez de construir um projeto centrado em um gênero específico, a DJ prefere pensar cada faixa como uma experiência. Essa narrativa aparece na construção dos ambientes sonoros, na velocidade das faixas e, principalmente, nas vozes que atravessam o projeto. “Eu acredito que a Dona Sinistrus seja um projeto de narrativa. É uma história que eu tento contar em cada música. Em algumas músicas, eu utilizo vocal, utilizo também a minha voz. É um processo que eu gosto bastante. Utilizo outras vozes também, de várias línguas, para trazer a sensação de alguém contando uma história”, conta a DJ fluminense. Mais do que identificar influências, a artista busca criar um lugar que não possa ser definido apenas por etiquetas. “Eu não quero necessariamente que as pessoas ouçam e falem: ‘isso aqui é techno’, ‘isso aqui é tal gênero’. Eu quero que elas descubram sozinhas esse lugar.”
Um ouvido que aprendeu a escutar diferente
Ao explicar o nascimento de Dona Sinistrus, Kenya volta diversas vezes à ideia de escuta. Não apenas ouvir música, mas desenvolver um ouvido capaz de perceber detalhes que antes passavam despercebidos. “Hoje eu posso falar que o ouvido com o qual eu escuto música é completamente diferente do ouvido da Kenya que escutava música com 16 anos.” Essa transformação também mudou sua forma de produzir, misturando referências de uma vida toda, experimentando nas pistas e ouvindo outros talentos. Mais do que uma mudança técnica, a DJ descreve uma maturação sensorial, onde o ato de produzir deixou de ser apenas sobre reproduzir referências para se tornar uma extensão direta dessa nova forma de ouvir.
Uma evolução, não uma ruptura
Embora represente um novo capítulo da carreira, Kenya faz questão de dizer que Dona Sinistrus não substitui Kenya20hz. Pelo contrário, existe continuidade entre as duas. “A Dona Sinistrus é a versão da Kenya que conseguiu controlar os 20 hertz”, afirma ela. Segundo a artista, a nova persona habita um universo que vem sendo construído há anos — não apenas pela música, mas também pelas imagens. “O som é uma pintura no ar. É uma materialidade. E foi com essa materialidade que se criou esse universo.” Também roteirista, Kenya conta que sempre enxergou o audiovisual como parte inseparável de seu trabalho. Por isso, Dona Sinistrus nasce acompanhada de uma identidade própria. “Essa personagem tem cara. Tem rosto. Sempre foi muito importante para mim trazer o universo visual. Através do figurino, através das artes que eu faço, através de vídeos, através das peças artísticas com as quais eu represento o meu som.” Ao definir esse momento da carreira, a artista evita falar em mudança. Prefere outra palavra. “É uma evolução. Literalmente uma evolução. É um amadurecimento. É uma materialização de tudo isso.”
Do rock para o eletrônico
Antes de construir Dona Sinistrus, Kenya20hz cresceu em Nilópolis, na Baixada Fluminense, muito mais pelo rock do que pela música eletrônica. Ouvia The Doors e Grateful Dead, e a virada aconteceu quando se mudou para Brasília para cursar Relações Internacionais. Nas festas clandestinas, teve o primeiro contato com o dubstep e o psytrance, descobertas que mudaram sua relação com a música. A curiosidade rapidamente virou obsessão. Em menos de um ano, já pesquisava subgêneros, passava horas procurando novas sonoridades e baixou o Virtual DJ para entender como aqueles sons eram construídos. Depois de trancar a faculdade e voltar ao Rio de Janeiro, foi selecionada para uma residência da Red Bull voltada à formação de jovens DJs e produtores. A partir dali, transformou a pesquisa em profissão.
Ancestralidade, África e o nascimento de Dona Sinistrus
Kenya fala sobre ancestralidade não como uma reconstrução literal do passado, mas como um processo sensorial. Segundo ela, determinados sons despertam estados mentais semelhantes, independentemente da origem. Ela cita desde o rock psicodélico — especialmente The Doors, banda que considera sua favorita — o dub, o psytrance e, mais tarde, os estudos sobre religiosidade de matriz africana. “Quando eu comecei a estudar mais sobre religiosidade e culturas africanas, eu tive contato com a umbanda e percebi que aqueles tambores, aquela percussividade, também me colocavam num lugar mental transcendental. Quando eu escutei psy, percebi que aquilo também fazia isso comigo. Tudo isso faz um fio em relação à minha ancestralidade.” A DJ reconhece que boa parte dessa ancestralidade foi interrompida ao longo da história da população negra brasileira. Por isso, acredita que a música pode funcionar como uma forma de reencontro. “Se eu for pensar na minha cultura e na minha família, boa parte dessa ancestralidade foi apagada. Então, quando eu entro em contato com esses tipos de sonoridades que me fazem olhar para dentro, eu acho que isso também é estar em contato com a minha ancestralidade.” Essa relação aparece também quando fala sobre o conceito de ancestrofuturismo, aproximando essa ideia do afrofuturismo e de uma imaginação de futuro construída sem romper completamente com a memória. “É imaginar esse futuro sabendo que ele também carrega uma memória do passado. Um conhecimento que foi perdido durante muito tempo, mas que está sendo retomado por meio da arte, da música, do audiovisual.” Todo esse universo ganha uma representação concreta em Dona Sinistrus. Para Kenya, a personagem não funciona exatamente como um alter ego, mas como a principal habitante do universo que ela vem construindo ao longo da carreira.
Com Dona Sinistrus, Kenya20hz não apaga o passado, mas o expande. A continuidade entre a DJ original e a nova personagem garante que o legado de anos de pesquisa não se perca, mas ganha forma. Resta aguardar como esse universo sonoro, repleto de referências tribais, eletrônicas e africanas, será recebido nas pistas e como a artista manterá o equilíbrio entre o peso do grave e a liberdade narrativa. Se a evolução for tão intencional quanto parece, temos um novo marco na música eletrônica brasileira pela frente.
💡 Você sabia que Kenya20hz começou sua carreira influenciada por rock clássico (The Doors e Grateful Dead) antes de se descobrir na cena eletrônica em festas clandestinas em Brasília?
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— Douglas W.


