DJ Urutau transforma pássaro fantasma em trilha sonora da crise climática

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O álbum “Ornitofagia“, que chega em 31 de agosto, mistura funk bruxaria, sons de aves e experimentação política para narrar a vingança da natureza contra o colapso ambiental.

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⏱️ Em 5 segundos:

  • DJ Urutau é o novo alter ego de Lua Viana, criador do projeto Antropoceno
  • O álbum “Ornitofagia” mistura funk, eletrônica, sons de aves e referências de MPB, afoxé e post-rock
  • O single “Engoli um Bem-te-vi (Na Onda do El Niño)” já está disponível como prévia
  • A narrativa gira em torno do urutau, ave fantasma do folclore brasileiro, que devora outras aves e absorve a dor da crise climática

Poucos projetos na cena eletrônica brasileira recente ousaram unir funk bruxaria, militância climática e folclore amazônico em uma mesma embalagem conceitual. Mas é exatamente isso que “Ornitofagia”, álbum de estreia do DJ Urutau, propõe: uma obra que usa o imaginário de uma ave fantasma para denunciar o colapso ambiental que já devora o Brasil. Previsto para 31 de agosto, o disco chega como um dos lançamentos mais inquietantes e politicamente densos da música eletrônica nacional neste ano.

A ave que engole o Antropoceno

Por trás do DJ Urutau está Lua Viana, artista já conhecido pelo projeto Antropoceno, que nos últimos anos vem construindo uma das pesquisas estéticas mais originais da música brasileira contemporânea. Viana trabalha com o conceito de “Futuro Ancestral”, cunhado pelo filósofo Ailton Krenak, costurando referências como afoxé, MPB, capoeira e samba com linguagens de pós-rock, pós-metal, art rock e glitch — sempre atravessado por gravações da Floresta Amazônica. Em “Ornitofagia”, esse percurso ganha um capítulo radical: o protagonismo sai do humano e migra para as aves.

O ponto de partida é o urutau (“pássaro fantasma” em tupi), também conhecido como mãe-da-lua. Ave noturna de camuflagem quase invisível e canto fantasmagórico, ela habita o imaginário popular como criatura de magia e assombração. Na narrativa do álbum, o urutau é atingido pelo Super El Niño, mata e devora um bem-te-vi, absorvendo seu espírito e seus saberes — para então passar a incorporar outras aves e, com elas, as dores provocadas pela crise climática: queimadas, enchentes, perda de território. Tomado por desejo de vingança, o pássaro-fantasma reúne uma aliança aviária contra a humanidade.

Quando o funk encontra o grito da floresta

O single de prévia, “Engoli um Bem-te-vi (Na Onda do El Niño)“, lançado em 27 de agosto, dá o tom do que esperar. A faixa conta com participação do próprio Antropoceno e sample de Ana Bonassa (do projeto Nunca Vi 1 Cientista), e dialoga diretamente com estudos sobre os limites planetários — conceito que estabelece os parâmetros para a manutenção da vida na Terra, e do qual, segundo a referência usada no projeto, sete dos nove já foram ultrapassados. É funk, mas um funk que parece ter sido tocado dentro de uma clareira em chamas.

A grande sacada de “Ornitofagia” está em inverter a lógica da antropofagia modernista. Em vez do artista devorando influências para criar, é o criador que se coloca como sujeito devorado pela própria obra, entregando o corpo à magia do urutau-feiticeiro. Essa inversão não é gratuita: ela espelha a própria condição humana diante da crise ecológica, em que o ser que se acreditava centro do mundo descobre ser presa do mundo que destruiu. Em tempos de ondas de calor cada vez mais extremas e de um debate climático capturado por negacionistas, a proposta soa não apenas coerente, mas urgente.

Em um cenário saturado de feats superficiais e batidas genéricas, o DJ Urutau surge como um lembrete de que a música eletrônica brasileira pode — e deve — ir muito além do club. Ao tomar a fauna como sujeito político e o som da floresta como matéria-prima, o projeto se alinha a uma linhagem que inclui desde Metá Metá até Mahmundi em seus momentos mais experimentais, mas com uma radicalidade sonora que dialoga também com o pós-rock de Shellac e com a violência rítmica de certo techno industrial.

O que esperar depois do canto da mãe-da-lua

Se “Ornitofagia” cumprir a promessa de sua proposta conceitual, o DJ Urutau pode se tornar rapidamente em uma das vozes mais relevantes da eletrônica política no Brasil — um campo ainda em formação, mas que começa a ganhar tração com nomes como o próprio Antropoceno, Juçara Marçal e coletivos que transitam entre arte sonora e ativismo. Mais do que um disco sobre a crise climática, o álbum se posiciona como um ato de resistência estética, em que a máquina de beats serve para amplificar o grito de espécies que não têm voz nos pactos humanos.

Para o ouvinte disposto a atravessar a estranheza, a recompensa é alta: um álbum que trata pássaros como sujeitos políticos, sampleia a ciência para falar de colapso e transforma o tupi ancestral em motor de experimentação sonora. Em tempos de emergência climática, “Ornitofagia” não pede permissão — simplesmente abre o bico e engole.

Curiosidade Vibermix

💡 Você sabia que o urutau, também chamado de “mãe-da-lua”, é uma ave noturna da Amazônia cujo canto é tão estranho e melancólico que inspirou lendas de assombração em diversas regiões do Brasil? Seu nome vem do tupi e significa literalmente “pássaro fantasma”.


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— Douglas W.