Em entrevista exclusiva, o curador artístico explica como o festival transforma desconhecidos em revelações e por que ninguém sai do RiR completamente satisfeito
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⏱️ Em 5 segundos:
- Zé Ricardo assume que parte do trabalho é provocar público e artistas com cruzamentos inesperados no palco
- O festival abraça K-pop, trap e orquestras enquanto mantém o rock, criando ponte entre gerações
- Curador defende que o público quer ser surpreendido, não apenas atendido em seus gostos prévios
Aos 40 anos, o Rock in Rio não precisa mais provar que é o maior festival da América Latina, mas Zé Ricardo, seu vice-presidente artístico, assumiu uma missão mais delicada: incomodar. Quem viu a primeira edição em 1985 sabe que o evento nasceu como templo do rock, mas hoje ele se transformou em laboratório de cruzamentos sonoros onde Sepultura divide palco com Zé Ramalho e Nação Zumbi recebe Ney Matogrosso. A curadoria não busca apenas reunir nomes consagrados — quer criar desconforto produtivo, aquele que faz o público questionar suas próprias preferências.
A trajetória de Zé Ricardo é ela mesma um manifesto sobre transformação. Em 1985, ele era apenas um espectador que sonhava em ver bandas; quatro décadas depois, é quem decide a escalação que milhões vão assistir. Essa jornada pessoal reflete a evolução do próprio festival, que passou de palco exclusivo para guitarristas a arena democrática onde o sertanejo, o trap, o K-pop e até orquestras clássicas convivem com o rock que lhe deu nome. O Sunset, hoje com 15 anos, tornou-se o laboratório oficial dessa mistura, provando que as combinações ousadas — como Jota Quest reinterpretando Tim Maia ou Péricles mergulhando na Motown — deixaram de ser exceções para virar programação obrigatória.
O que está em jogo vai além da programação musical. Zé Ricardo trata cada edição como um retrato do país, usando o line-up para antecipar debates sociais. O Dia do Divino Feminino dedicado a artistas mulheres e a chegada do K-pop em 2026 não são coincidências: são posicionamentos políticos e culturais disfarçados de entretenimento. Ele admite que escolhe artistas pela presença de palco, não apenas por métricas de streaming, e cobra de si mesmo que ninguém saia do festival igual ao que entrou. Essa postura transforma o Rock in Rio em uma experiência de descoberta forçada, onde o desconhecido se torna o grande atrativo.
Há um risco calculado nessa estratégia. Ao tentar agradar três gerações da mesma família — avô, pai e filho — o festival corre o perigo de diluir sua identidade e virar um parque de diversões musical. Mas Zé Ricardo parece confortável com essa tensão, comparando a relação com o público a uma torcida de futebol: ninguém sai 100% satisfeito, e é exatamente isso que mantém o engajamento vivo. A crítica que fica é se tantas fusões não podem, por vezes, soar como gimmicks superficiais, mas ele rebate com a ideia de que tudo é “muito trabalhado, muito mergulhado”. A questão é se a profundidade anunciada corresponde à execução real nos palcos.
Do ponto de vista da indústria, essa abordagem é brilhante e necessária. Festivais que se fecham em bolhas genreciais estão fadados à irrelevância. Ao trazer Elton John para uma de suas últimas turnês ao lado de artistas emergentes, o Rock in Rio cria uma ponte entre o legado e o presente, permitindo que novas gerações entendam a história da música enquanto veteranos reafirmam seu lugar na cena. O perigo está na excessiva commodificação da diversidade: quando tudo vira “experiência única”, corre-se o risco de transformar cultura em produto turístico. Mas, enquanto houver curadores dispostos a arriscar, o festival continua cumprindo sua função social.
O Rock in Rio dos anos 2020 não é mais apenas um festival — é um termômetro cultural que mede para onde a música brasileira e global estão caminhando. Zé Ricardo entende que seu papel não é satisfazer pedidos, mas expandir horizontes. “O povo sabe o que quer, mas o povo também quer o que não sabe”, diz ele, e essa frase resume a essência do que fazemos quando nos entregamos a um show desconhecido. A pergunta que fica é: até onde a ousadia pode ir antes de perder a alma? A resposta, como sempre, estará no próximo line-up.
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— Douglas W.


