Em 2040, a música que ouviremos será decidida por quem?

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A coluna de Felippe Llerena levanta uma questão incômoda: entre algoritmos, IA e concentração de mercado, o futuro da cena musical brasileira está sendo escrito por poucas mãos.

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⏱️ Em 5 segundos:

  • Felippe Llerena, presidente da ABMI, questiona quem definirá a paisagem musical brasileira em 2040
  • Algoritmos priorizam retenção e eficiência, não diversidade cultural nem inovação artística
  • A preservação do repertório brasileiro corre risco de se tornar exclusividade dos grandes grupos econômicos
  • Defender a música independente é defender a soberania cultural do Brasil
  • A IA será ferramenta poderosa, mas o desafio é garantir que amplie a criatividade humana

O futuro da música não é uma questão técnica — é uma questão de poder

Quando Felippe Llerena abre sua coluna nesta semana fazendo a pergunta “quem decidirá o que vamos escutar em 2040?”, ele está fazendo muito mais do que uma reflexão filosófica. Está colocando na mesa uma disputa que já está em curso e que afeta diretamente cada artista, cada produtor e cada ouvinte da cena eletrônica brasileira. A pergunta não é retórica. É operacional. E a resposta determinará se o Brasil seguirá sendo referência em diversidade sonora ou se se tornará mais um mercado de consumo alimentado por recomendações automatizadas.

Vivemos um momento em que a produção musical nunca foi tão acessível. Um laptop, um plugin e uma conexão com a internet bastam para que qualquer produtor de techno no Vale do Anhangabaú ou de bass music na periferia de Salvador lance uma faixa para o mundo. Mas esse aparente paraíso democrático esconde uma armadilha silenciosa: os sistemas que decidem o que chega aos ouvidos não foram desenhados para valorizar a descoberta. Foram desenhados para maximizar o tempo de tela, a repetição de escuta e a previsibilidade de engajamento. No mundo da música eletrônica, isso significa que o som que sobe nos algoritmos tende a ser aquele que soa como o que já funcionou — e não o som que ousa quebrar padrões.

O paradoxo da democratização digital

Llerena toca em um ponto crucial quando reconhece que a tecnologia não é inimiga. Ela foi, de fato, o grande equalizador da última década. Artistas independentes de música eletrônica que, há vinte anos, dependeriam de sellouts e gravadoras para tocar em festas, hoje constroem carreiras inteiras apenas com distribuição digital e redes sociais. A Nikita Music, empresa de Llerena, é um exemplo vivo dessa transformação: uma distribuidora 100% brasileira que coloca catálogos nacionais no mapa global sem depender de intermediários estrangeiros.

No entanto, a democratização do acesso não se confunde com a democratização da visibilidade. Enquanto milhares de novos artistas eletrônicos brasileiros lançam música toda semana, os sistemas de recomendação das plataformas digitais concentram o fluxo de ouvintes em um número cada vez menor de nomes — frequentemente aqueles que já possuem orçamentos de marketing ou acordos de distribuição privilegiados. O resultado é uma curadoria invisível que, embora não seja controlada por um singelo executivo, opera com uma lógica igualmente concentradora: a do engajamento máximo.

Preservação: o tema que ninguém quer discutir

Um dos trechos mais preocupantes da coluna trata da preservação do repertório musical brasileiro. Llerena argumenta que regravar obras clássicas da nossa música — seja ela bossa nova, samba-requine ou até mesmo os clássicos do funk carioca dos anos 2000 que hoje ecoam nas sets de DJs internacionais — tornou-se um desafio financeiro quase intransponível para projetos independentes. Os custos de licenciamento, impostos sobre direitos autorais e as condições impostas por grandes detentores de catálogo fecham portas que deveriam estar escancaradas.

Pensando na cena eletrônica, isso é particularmente grave. Grandes parte dos samples, breaks e referências sonoras que alimentam a produção de house, techno e baile funk têm raízes em gravações brasileiras antigas. Se o acesso a esses repertórios se concentrar nas mãos de poucos grupos econômicos, o efeito cascata será devastador: novos artistas não poderão reinterpretar, samplear ou dialogar com a história sonora do país. A memória musical brasileira corre o risco de se tornar um museu privado.

Soberania cultural como bandeira da cena

Llerena, na sua condição de presidente da ABMI, coloca a soberania cultural como resposta central a esse cenário. E a palavra-chave aqui é “defesa” — não isolamento, mas garantia de que o ecossistema musical brasileiro tenha autonomia para tomar suas próprias decisões. Isso é especialmente relevante para a música eletrônica, gênero que nasceu na Europa e se espalhou pelo mundo, mas que no Brasil ganhou contornos únicos: o baile funk paulista, o tecnobrega paraense, o bass nacional e o techno feito em São Paulo possuem identidades que nenhuma playlist algorítmica consegue categorizar adequadamente.

A IA, por sua vez, será inevitavelmente uma ferramenta presente na produção musical dos próximos anos. Já vemos isso acontecer: artistas eletrônicos experimentam generadores de áudio com inteligência artificial, e plataformas começam a oferecer ferramentas de mixagem automatizada. O risco não está na tecnologia em si, mas na normalização de um modelo em que o “sucesso” é definido por fórmulas matemáticas. Se o mercado passar a valorizar apenas o que os dados indicam como “votável”, perdemos justamente aquela quebra de padrões que faz da música eletrônica brasileira algo vivo e imprevisível.

O que fica para 2040

Quando Llerena conclui sua coluna afirmando que “a tecnologia deve servir à cultura, e não o contrário”, está sintetizando a batalha que define o momento atual da indústria musical. A pergunta final — “quem terá o direito de contar a história da música brasileira?” — é, na verdade, a pergunta que deveria estar sendo debatida em cada festival, em cada gravadora, em cada coletivo de DJs e em cada sala de reunião do setor. A cena eletrônica brasileira tem tudo para ser protagonista nesse debate: é um dos segmentos mais criativos, mais diversos e mais conectados do mercado musical do país. O que não pode é assistir passivamente enquanto algoritmos e interesses econômicos decidem o que o mundo vai ouvir daqui a duas décadas.

A reflexão é clara e não admite ambiguidade: se não houver uma ação consciente e coordenada em defesa da música independente, o futuro que se desenha para 2040 é um futuro de uniformidade disfarçada de personalização. E a música eletrônica, que sempre foi sinônimo de ruptura e inovação, não pode ser a maior vítima dessa contradição.

Curiosidade Vibermix

💡 Você sabia que a ABMI (Associação Brasileira da Música Independente) reúne mais de 500 empresas associadas e responde por uma fatia significativa de todo o catálogo musical lançado anualmente no Brasil fora das grandes gravadoras?


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— Douglas W.