Na 10ª edição do festival, nomes como O Rosa e Juliana D Passos mostram que a cena cultural de Florianópolis é muito mais do que praia e turismo — é potência autoral e resistência.
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- A 10ª edição do ARVO Festival acontece em 16 de maio no Kartódromo Sapiens Parque, em Florianópolis, com João Gomes, BaianaSystem, Gilsons, Fundo de Quintal e outros nomes no palco principal.
- Artistas locais como O Rosa e Juliana D Passos destacam a importância de ocupar festivais de circulação nacional indo além da imagem turística da cidade.
- A programação paralela no Beco do Samba reforça a diversidade cultural da ilha, com samba de raiz, grupos de mulheres e mestres da cultura popular catarinense.
Quando se fala em Florianópolis, as primeiras imagens que vêm à cabeça costumam ser praias cristalinas, trilhas exuberantes e aquela qualidade de vida que rende elogios mundo afora. Mas a 10ª edição do ARVO Festival, marcada para o dia 16 de maio no Kartódromo Sapiens Parque, quer mudar esse roteiro. Mais do que uma festa ao ar livre com cenário paradisíaco, o evento se propõe a ser uma vitrine para a produção cultural que pulsa nos morros, nos quintais e nas ruas da capital catarinense.
No palco principal, João Gomes assume a curadoria convidando nomes de peso como Jota.pê, BaianaSystem, Fundo de Quintal, Duquesa, Gilsons, Carol Biazin e o Maracatu Arrasta Ilha. Mas é nos cantos menos óbvios do festival que a Florianópolis real se revela. Artistas nascidos na própria ilha ganham espaço estratégico, e dois nomes se destacam nessa missão: O Rosa e Juliana D Passos.
Sambista criado no Morro da Caixa, O Rosa encara sua participação no ARVO como muito mais do que uma oportunidade de palco — é um ato de visibilidade. “Muita gente de fora fica surpresa ao descobrir que aqui, no Sul do país, na capital de Santa Catarina, existem escolas de samba, morro, favela, cultura negra e artistas que representam tudo isso”, conta. Para ele, o maior desafio não é falta de talento, mas de pontes: “Sem uma conexão real entre a cena local e o mercado nacional, muitos artistas seguem presos à própria região, mesmo tendo potencial para alcançar públicos muito maiores.”
Romper o lugar-comum: a voz de Juliana D Passos
Se O Rosa traz a força do samba e da ancestralidade, Juliana D Passos chega com uma proposta que desafia as expectativas sobre o que significa ser artista de Florianópolis. Para ela, estar no line-up de um festival de circulação nacional não é um prêmio de consolação — é uma afirmação de potência criativa. “É romper um lugar que durante muito tempo foi imposto aos artistas daqui”, defende. “Existe produção autoral, pesquisa estética e potência cultural no Sul, muito além do eixo tradicional da indústria”.
A dificuldade de circulação é um problema estrutural que ambos os artistas conhecem bem. Custo de deslocamento, ausência de políticas continuadas de intercâmbio cultural e a histórica concentração do mercado musical no eixo Rio–São Paulo formam um tripé que mantém muitos talentos catarinenses invisíveis ao resto do país. É exatamente nesse ponto que o ARVO se torna mais do que um festival: funciona como uma ponte, um espaço de contato onde a cena de Santa Catarina encontra o olhar do Brasil.
O Beco do Samba: onde a tradição encontra a nova geração
Além do palco principal, uma das apostas mais certeiras do ARVO 2026 é o Beco do Samba, que reúne nomes fundamentais da música popular catarinense em uma programação dedicada à resistência cultural. O Quintal do Fê – Samba do Rosa recebe Elô Gonzaga; o Samba das Preta traz Juliana D Passos ao lado de Julia Maria; o Samba Informal de Rua convida Ju Queiroz; e o coletivo Bastião apresenta Bárbara Damásio e Camélia Martins. Cada encontro é um lembrete de que Florianópolis não se resume ao cartão-postal — ali existe uma cena viva, diversa e que merece ser ouvida em todo o território nacional.
O ARVO Festival 2026 não promete resolver, sozinho, todos os gargalos de circulação da música feita em Santa Catarina. Mas ao abrir suas portas para artistas que carregam nas vozes a história dos morros, a força do samba e a potência da cultura negra do Sul, o festival dá um passo decisivo: prova que Florianópolis pode ser muito mais do que cenário — pode ser protagonista.
💡 Você sabia que Florianópolis, conhecida nacionalmente pelas praias e qualidade de vida, também abriga escolas de samba tradicionais, morros com forte produção cultural negra e coletivos de maracatu que resistem há décadas — realidades ainda pouco conhecidas fora de Santa Catarina?



