Comitiva de mais de 60 profissionais desembarca nas Ilhas Canárias para transformar o momento de expansão da música brasileira em negócios concretos no exterior
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⏱️ Em 5 segundos:
- Delegação brasileira triplica de tamanho: 60+ profissionais contra 20 das edições anteriores
- Brasil é 8º maior mercado fonográfico mundial com crescimento de 14,1% em 2025
- Showcases oficiais: Tiganá Santana e Baile do Mestre Cupijó; offWOMEX: Almério, Assucena e Jéssica Gaspar
- Exposição imersiva ‘Baile Funk Invasion’ discute presença brasileira na cena global do funk
- Três perfis estratégicos: AFROPUNK Brasil, Boogie Naipe (Racionais MCs) e selo independente 7disCOs
A música brasileira nunca esteve tão presente nas prateleiras e playlists do mundo — e agora, pela primeira vez, ela chega à maior vitrine do setor com o peso de quem não pede licença. A WOMEX 2026, que abre as portas nesta quarta-feira em Las Palmas de Gran Canaria, recebe a maior delegação brasileira da história: mais de 60 profissionais entre artistas, empresários, curadores, jornalistas e gestores de todas as regiões do país. Para dimensionar o salto: nas duas edições anteriores, a comitiva organizada pela Funarte mal passava de 20 nomes. O recado é claro — o Brasil deixou de ser promessa para virar prioridade estratégica no tabuleiro global.
O momento que explica o tamanho da aposta
Não é coincidência. O Brasil ocupa hoje a oitava posição no ranking mundial de música gravada, com crescimento de 14,1% em 2025, segundo dados da IFPI apresentados na mesma semana na Billboard Latin Music Week, em Miami. O consumo de artistas brasileiros no Spotify saltou 24% em um ano, puxado por uma alta de 36% no funk — fenômeno que a Billboard Brasil vem mapeando com a explosão do brazilian phonk na Europa e a atuação de selos estrangeiros recirculando o gênero a partir de outros territórios. A WOMEX, criada em 1994 pela alemã Piranha Arts e realizada anualmente em outubro, é justamente onde esse interesse vira contrato: 2.600 profissionais de 90 países, 260 showcases e o poder de definir quem roda o mundo no ano seguinte. Estar na seleção oficial não é apenas prestígio — é passaporte para turnês europeias e além.
Três rostos, três estratégias, um mesmo objetivo
A diversidade da comitiva não é decorativa. Potyra Lavor carrega a bandeira do AFROPUNK Brasil, versão tupiniquim do maior festival de cultura negra do planeta, e resume a urgência: “Estar aqui é afirmar que a produção negra brasileira não é tendência, é mercado, é potência e precisa estar nas mesas onde as decisões são tomadas”. Eliane Dias, CEO da Boogie Naipe e gestora de nomes como Racionais MCs e Duquesa, vê na feira a chance de levar rap e trap nacionais a outro patamar — “vou dar, como sempre, o meu melhor em prol da nossa MPB, a Música Preta Brasileira”. Já Laura Sampaio, à frente do selo independente 7disCOs (fundado em 2023), estreia no circuito internacional com dois artistas na bagagem — CHAOSS, do R&B/rap baiano, e Samuel Lumin, paulistano que funde rap, audiovisual e pintura — e uma proposta inversa: ajudar projetos estrangeiros a construir público no Brasil. Três perfis, três frentes, mesma conclusão: o mercado brasileiro amadureceu o suficiente para jogar nos dois sentidos da via.
Funk, ancestralidade e o palco como argumento
Se nos escritórios a negociação corre solta, nos palcos a identidade brasileira se impõe. A seleção oficial traz Tiganá Santana (23/10, Theatre Stage) e o Baile do Mestre Cupijó (24/10, Plaza Stage) — este último, patrimônio vivo do carimbó paraense que o grupo Suraras do Tapajós ajudou a recolocar no mapa na edição de 2025 em Tampere. No offWOMEX, Almério, Assucena e Jéssica Gaspar dividem a Sala Gabriel Rodó na noite de 22 de outubro. E há um detalhe que não passa despercebido: o festival Favela Sounds e a Embratur levam a exposição imersiva “Baile Funk Invasion”, que escancara a contradição de um gênero nascido no Brasil, dominado globalmente, mas com baixa presença de brasileiros nas decisões internacionais sobre o próprio estilo. É arte, é política, é negócio — tudo ao mesmo tempo.
Infraestrutura de Estado e a lição de casa
Por trás da delegação, uma teia de articulação institucional que merece destaque: o projeto Music From Brasil, da BM&A com a ApexBrasil, parceiro da WOMEX há mais de uma década; a Funarte com 15 profissionais de oito estados; o CreativeSP selecionando dez empresas paulistas; apoios de Embratur, InvestSP, Prefeitura de Salvador e Sebrae Bahia. Não é improvisação — é política pública de exportação cultural funcionando. A escolha de Gran Canaria, aliás, tem simbolismo geopolítico: o arquipélago, porta do Atlântico voltada à África e parte da Macaronésia, ecoa as rotas históricas que ligam o Brasil ao mundo. A feira ocorre no Auditório Alfredo Kraus e palcos satélites, mesma estrutura que recebeu a edição de 2018.
O que se desenha nas Ilhas Canárias esta semana não é um episódio isolado — é a consolidação de um movimento que vem se construindo há anos e finalmente ganhou escala, estrutura e protagonismo. Se a WOMEX define o que o mundo vai ouvir, o Brasil de 2026 chega para garantir que a trilha sonora tenha sotaque próprio, diversidade real e poder de negociação. Os showcases vão passar, as rodadas de negócios vão gerar contratos (ou não), mas a mensagem já foi entregue: a música brasileira não quer mais apenas participar da conversa global. Ela quer pautar a agenda. E, pelo tamanho da comitiva, parece que o mundo vai ter que ouvir.
💡 Você sabia que a WOMEX nasceu em Berlim em 1994 como ponto de encontro da ‘world music‘ e hoje reúne 2.600 profissionais de 90 países — mas foi só em 2018 que a feira pisou pela primeira vez em solo espanhol, nas Ilhas Canárias?
— Douglas W.


