De Joyce de Oliveira aos beats de Carola, descoberta de mais de cinco décadas de trabalho feminino que a história tentou apagar.
⏱️ Em 5 segundos:
- De Joyce de Oliveira em 1961 até Carola comandando o Mainstage do Tomorrowland.
- Mais de 50 mulheres que enfrentaram machismo, preconceito e invisibilidade para deixar sua marca na cena.
Quando alguém imagina a história da música eletrônica brasileira, os nomes que costumam aparecer são, na maioria das vezes, masculinos. Mas isso não significa que as mulheres estiveram ausentes — pelo contrário. Elas estiveram lá desde os primórdios, lutando contra um mercado que insiste em tratá-las como exceção, como acidente, como quem não merece estar no lineup. E mesmo assim, seguiram produzindo, tocando e transformando a cena.
A trajetória começa surpreendentemente cedo. Em 1961, a compositora e pianista Joyce de Oliveira subiu ao palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro com um espetáculo que misturava som eletrônico e vídeo, usando equipamento importado da Holanda. Pouco depois dela, Sônia Abreu já explorava o mundo da discotecagem em São Paulo, sendo a primeira mulher a comandar as noites da famosa discoteca Papagaio Disco Club em 1977. Na década seguinte, a era disco trouxe Lady Zu para o centro do palco, conquistando Chacrinha com seu timbre e hits que hoje são clássicos da soul brasileira.
O Underground e a Resistência Silenciosa
É nos anos 90 que a cena ganha corpo definitivo. Em São Paulo, enquanto clubes como o Hell’s Club, Over Night e Nation surgiam para acolher o movimento clubber, figuras como Andrea Gram e Paula Chalup se tornavam referências do techno nacional, enfrentando um universo ainda mais hostil ao simples fato de serem mulheres. Andrea, chamada de “rainha do underground” por Claudia Assef, comandou noites lendárias no Club Alien. Ana Gelfei, conhecida como Ana do Petduo, escolheu o hard techno — um som considerado “pesado demais para pista” — e, ao lado de David, criou um projeto que se tornaria referência no país. Já Gaía Passarelli foi uma das idealizadoras do rraurl, o primeiro portal dedicado à música eletrônica no Brasil, mostrando que a contribuição feminina não se limitava às pistas: também estava na informação, na curadoria e na mídia.
Nos anos 2000, o cenário se expandiu. Tânia Saraiva fundou a Tune Agency, uma das principais agências de DJs do país. Eli Iwasa reinventou noites em São Paulo e Campinas enquanto administrava múltiplos empreendimentos. ANNA, nascida no interior de São Paulo, partiu para Barcelona e conquistou o mundo lá fora antes de receber o devido reconhecimento aqui. Ana Biazin transformou o D-EDGE em um marco da cultura eletrônica carioca. E Claudia Assef não só escreveu livros que viraram referência sobre a história do disc-jóquei no Brasil, como também inaugurou a Galeria do DJ, primeiro espaço público da América Latina dedicado à discotecagem.
A Nova Geração e a Força que Não Para
Entre os anos 2010 e 2020, o discurso mudou — mas os desafios continuaram. A Mamba Negra, criada por Cashu e Carneosso, se tornou uma das festas mais importantes de representatividade LGBTQIA+ no circuito underground. Carola se tornou a primeira mulher do mundo a lançar pela label de Martin Garrix e comandou o Mainstage do Tomorrowland em 2023. Curol, artista preta e LGBTQIA+, alcançou o topo do Beatport e se apresentou na BBC Radio 1. Valentina Luz, DJ, modelo, performer e trans, ganhou prêmios e pisou em palcos como o Watergate em Berlim e o Lollapalooza.
Essas histórias não são apenas listas de conquistas — são relatos de resistência. Cada uma dessas mulheres precisou superar o dobro do que seus colegas masculinos enfrentavam: cachês menores, horários desiguais, falta de apoio na produção e, muitas vezes, o simples esquecimento de seu nome nos registros históricos. O que permanece, no entanto, é o legado concreto que deixaram: festas que existem porque elas as criaram, sons que foram ouvidos porque elas os produziram e portais que informam porque elas os fundaram. A música eletrônica brasileira não teria a mesma cara sem essas vozes.
💡 Você sabia que Joyce de Oliveira realizou a primeira performance de música eletrônica no Brasil em 1961, trazendo equipamento da Holanda para o Theatro Municipal do Rio de Janeiro com doze caixas de som espalhadas pelo local?



