Após a perda dos pais e os 60 anos, o cantor uruguaio encontra na percussão do candombe a força para reinventar sua relação com as raízes e celebrar a herança musical que cruza fronteiras.
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- Jorge Drexler reconecta-se com as raízes uruguaias após a perda dos pais e aos 60 anos
- O novo álbum ‘Taracá‘ transforma Gonzaguinha em candombe e celebra o tambor chico como âncora existencial
Quando a vida tira de você os últimos laços que te mantinham ancorado ao passado, resta um espaço vazio — e é nesse vazio que Jorge Drexler encontrou o tambor. O cantor uruguaio, conhecido mundialmente por ter levado o Oscar para casa com a canção de Diários de Motocicleta, vive hoje um dos capítulos mais intensos de sua trajetória. Completou 60 anos, perdeu os pais e sentiu a urgência de voltar às origens. O resultado dessa Jornada interior é “Taracá”, álbum que funciona como um mapa emocional entre Montevidéu e as rodas de samba do Rio de Janeiro.
A escolha do título não foi acidental. “Taracá” é o som que o pequeno tambor do candombe faz quando bate. Para Drexler, esse instrumento é a coluna vertebral de tudo: “Ele não improvisa, é fixo e meditativo. Mantém os outros tambores no lugar. É um tambor que te obriga a estar no presente”, explica o músico. A perda dos pais provocou uma mudança de papel — de filho para pai — e essa virada emocional o empurrou de volta ao Uruguai, país onde passou a primeira metade da vida e onde ainda existe toda a sua família.
Do samba de Gonzaguinha ao candombe uruguaio
Uma das faixas mais emblemáticas do disco é a releitura de “O Que É, O Que É?”, clássico de Gonzaguinha. Drexler transformou o samba em candombe, criando uma ponte sonora entre o Rio de Janeiro e Montevidéu. “Quis levar isso para o público que fala espanhol. Fiz uma adaptação da letra e transformei o samba em candombe para tornar a música realmente nossa”, revela. A decisão nasceu de uma vivência concreta: o compositor frequenta redutos do samba carioca, como o Samba do Trabalhador e o Renascença Clube, onde a obra de Gonzaguinha ecoa em cada esquina.
O disco também homenageia Eduardo Mateo, pioneiro do folk uruguaio, cujo álbum “Mateo Solo Bien Se Lame” foi o responsável por mostrar a Drexler que era possível trazer sofisticação técnica para o idioma espanhol. Essa influência se mescla com a murga de Falta y Resto, a voz da rapper Young Miko e a presença de Américo Young e Ángeles Toledano. O resultado é um trabalho plural, aberto ao diálogo entre gerações e culturas.
Uma turnê mais física e o Brasil em 2026
A apresentação ao vivo promete ser uma experiência completamente diferente dos shows anteriores. O palco contará com oito músicos — quatro homens e quatro mulheres — e terá uma energia percussiva e expansiva. “Diferente dos shows anteriores, onde a audiência ficava sentada, este é um show para ver de pé”, conta Drexler. A banda, formada em grande parte por músicos que fazem sua primeira turnê internacional, trará uma frescura e vitalidade ao espetáculo.
Jorge Drexler retorna ao Brasil em maio de 2026 com passagens por Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre. O álbum já está disponível em todas as plataformas digitais. Drexler mora na Espanha há três décadas, mas garante: “Tenho toda a minha família no Uruguai e mantenho o coração batendo no ritmo uruguaio e na alma brasileira”. O tambor chico toca, e as fronteiras se desmancham.
💡 Você sabia que o nome ‘Taracá’ vem da onomatopeia que imita o som do tambor chico, o menor instrumento do candombe uruguaio, que funciona como a coluna vertebral dessa manifestação rítmica?



