Mulheres que comandam as pistas: a história invisível da eletrônica brasileira

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Da bossa nova ao Tomorrowland, um panorama de 60 anos mostra como artistas, produtoras e bookers femininas construíram a cena eletrônica nacional — enquanto o mercado ainda insiste em ignorá-las.

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⏱️ Em 5 segundos:

  • Matéria especial do Dia Internacional da Mulher mapeia 52 nomes femininos que construíram a música eletrônica no Brasil, desde os anos 60 até a década atual.
  • Artistas como Jocy de Oliveira, ANNA, Carola, Curol e Valentina Luz são destacadas, revelando a diversidade de papéis — DJ, produtora, booker, promoter e jornalista — ocupados por mulheres na cena.
  • A matéria denuncia a desigualdade persistente: cachês menores, espaço reduzido nos lineups e a necessidade de mulheres “demonstrarem o dobro” para alcançar o mesmo reconhecimento que homens.
  • Figuras como Claudia Assef, Érika Palomino e Gaía Passarelli são lembradas como pilares da informação e preservação da cultura eletrônica nacional.
  • A House Mag reforça que a contribuição feminina segue invisibilizada nos registros históricos e promete continuar dando voz a essas referências.

Por mais que o mercado da música eletrônica insistisse em pintar a pista como um território exclusivamente masculino, a história real sempre teu nomes de mulheres que estavam lá — ocupando espaços de comando, quebrando barreiras e construindo a cena desde o início. Em plena véspera do Dia Internacional da Mulher, a House Mag publicou uma matéria que faz o que poucos veículos se dispõem a fazer: um raio-X completo de 52 figuras femininas que sustentam a eletrônica brasileira, das décadas de 1960 até os dias atuais. E o resultado é ao mesmo tempo uma homenagem merecida e um olhar incômodo sobre o quanto ainda falta para alcançar a equidade que essas mulheres já mereciam há décadas.

A jornada começa em 1961, quando a curitibana Jocy de Oliveira realizou a primeira performance de música eletrônica no país, utilizando equipamento importado da Holanda e doze caixas de som espalhadas por dois teatros municipais — um feito que a colocou na vanguarda da eletroacústica brasileira com reconhecimento internacional. Dos anos 60 aos 2020, o texto percorre seis décadas de contribuições femininas que vão muito além da cabine de DJ: Sônia Abreu, a primeira mulher a tocar na noite paulistana em 1977, na icônica Papagaio Disco Club; Érika Palomino, que documentou a explosão clubber de São Paulo no livro “Babado Forte” e cuja coluna “Noite Ilustrada” deu visibilidade à comunidade LGBT e à cultura de pista quando isso era impensável; Gaía Passarelli, que em 1997 fundou o rraurl, o primeiro portal dedicado à música eletrônica no Brasil; e Tânia Saraiva, que passou de designer gráfico de festas a fundadora da Tune Agency, uma das maiores agências de DJs do país.

O que a House Mag faz de diferente é justamente recusar-se a tratar essas mulheres como exceções ou curiosidades. Pelo contrário: o texto as coloca como protagonistas inevitáveis de uma narrativa que o mercado tentou apagar. Ana Biazin, que curou as noites de quinta do D-EDGE e ajudou a definir o que seria o techno paulistano de pista; Ekanta Jake, que ao lado de Juarez Petrillo criou o Universo Paralello, um dos maiores festivais de psytrance das Américas; Priscila Prestes, que fundou a Alliance Artists e hoje curadoria o Warung Beach Club; e Ju Cavalcanti, a “primeira-dama da e-music no Nordeste”, que trouxe gigantes como David Guetta e Armin Van Buuren para Pernambuco. São nomes que respondem pela infraestrutura inteira da cena — e que raramente aparecem nos mesmos holofotes que seus pares masculinos.

Mas o tom da matéria não é apenas de celebração. A House Mag não esconde a ferida: a disparidade salarial, a sub-representação nos lineups dos grandes festivais, o assédio nos bastidores e a exigência absurda de que uma mulher precisasse “mostrar o dobro” para ser reconhecida no mesmo patamar. É uma crítica que ganha contornos ainda mais potentes quando se observa que, mesmo com nomes como ANNA — a maior DJ e produtora brasileira da atualidade, natural de Amparo e hoje radicada em Barcelona — conquistando palcos como o Tomorrowland Mainstage e lançando documentário sobre sua trajetória, o reconhecimento muitas vezes só chegou depois de anos de invisibilidade no próprio país. A mesma ANNA que só foi plenamente valorizada no Brasil após se consolidar na Europa é o retrato perfeito de um mercado que precisa de validação externa para reconhecer o talento feminino nacional.

O que me chamou atenção na construção editorial é como a matéria conecta gerações: a herança de Jocy de Oliveira na experimentação sonora dialoga diretamente com a ousadia de Carola, primeira mulher do mundo a lançar pela STMPD RCRDS de Martin Garrix e primeira brasileira preta a tocar no Tomorrowland. A trajetória de Érika Palomino escrevendo sobre a noite paulistana nos anos 90 ecoa no trabalho de Jeniffer Ávila comandando a House Mag hoje. E nomes como Valentina Luz, Curol e Amanda Mussi — presenças fortes na cena queer e trans — mostram que a eletrônica brasileira ganha em potência e diversidade a cada mulher que ocupa seu espaço. É uma teia de influência que se entrelaça e se fortalece, mesmo quando o mercado tenta fragmentá-la.

Olhando para frente, o texto da House Mag levanta uma pergunta que não se encerra no 8 de março: o que acontece quando a indústria parar de tratar essas contribuições como excepcionais e começar a enxergá-las como estruturais? A resposta está nas próximas edições dos lineups dos grandes festivais, nos valores dos cachês, na proporção de mulheres ocupando posições de poder nas curadorias e agências. O artigo funciona como um arquivo vivo — uma lembrança de que a história da música eletrônica brasileira não foi escrita apenas por homens, e que continuar escrevendo essa história exige reconhecer quem já esteve lá desde o início. Aos 52 nomes listados, fica o compromisso coletivo de que a próxima geração de mulheres na eletrônica não precise mais lutar para ter seu nome registrado na mesma proporção que seus colegas masculinos.

Curiosidade Vibermix

💡 Você sabia que Jocy de Oliveira realizou a primeira performance de música eletrônica no Brasil em 1961, com 12 caixas de som distribuídas pelo Theatro Municipal do Rio de Janeiro e São Paulo, utilizando equipamento trazido da Holanda pela Philips?