Fundado em belém em 2012 com apenas 300 pessoas, o Psica cresceu até reunir 120 mil e agora prepara um festival itinerante no Marajó. Em conversa com o ‘cabos e cases‘, o criador conta os bastidores dessa revolução cultural paraense.
Thank you for reading this post, don't forget to subscribe!
⏱️ Em 5 segundos:
- festival psica nasceu em Belém em 2012 com 300 pessoas e hoje reúne 120 mil, levando artistas amazônicos para a China
- gerson dias detalha as quatro transformações de formato do evento e o período de crise após a edição de 2022
- Novo projeto anunciado: festival itinerante no Marajó, batizado como ‘verão amazônico’, com apoio da Petrobras e público estimado em até 6 mil pessoas
Quando Gerson Dias sentou para conversar com o podcast ‘Cabos e Cases’, da Billboard Brasil, ele não estava apenas fazendo mais uma entrevista promocional. Estava contando uma história que poucos no cenário nacional conseguiriam narrar com tanta clareza: a de um festival que nasceu na periferia de Belém, sem recursos, sem patrocínio inicial e sem espaço na mídia, e que hoje se tornou um dos maiores eventos de música do Norte do Brasil — com números que rivalizam com grandes festivais de outros estados. A trajetória do Psica, revelada com exclusividade na conversa, é um retrato cru e inspirador de como a cultura periférica pode se transformar em força econômica e artística sem perder a essência.
Do barraco à multidão: a gênese de um movimento
O Psica surgiu em 2012 a partir de uma frustração coletiva. Jovens da periferia de Belém sentiam que a cidade não oferecia espaços que os acolhessem da forma que mereciam. ‘A gente gostava de dar rolê pela cidade, só que os espaços não eram feitos para acolher pessoas como a gente. Então a gente pensou: precisamos criar o nosso espaço’, contou Gerson. Essa frase simples carrega um peso enorme: o de uma geração que decidiu construir seus próprios palcos em vez de esperar por eles. O que começou com 300 pessoas em uma edição rudimentar se transformou, ao longo de mais de uma década, em um evento que chegou a reunir 120 mil pessoas — um crescimento exponencial que coloca o Psica entre os festivais de maior público do cenário musical brasileiro.
Mas nem tudo foi linha reta. Gerson admitiu, sem filtros, que o festival passou por quatro grandes transformações de formato e que a edição de 2022 deixou cicatrizes financeiras profundas. ‘Quando a gente tá no fundo do poço, parece que tem uma mola que catapulta a gente e muda. O Psica sempre se reinventa’, disse ele. Essa capacidade de resiliência — de quebrar e reconstruir o próprio formato — é talvez o maior ativo do evento. Em um mercado de festivais no Brasil que vê constantes cancelamentos e crise estrutural, o Psica se reinventou não uma, mas quatro vezes, o que diz muito sobre a gestão e a visão de seu criador.
Aparelhagens como protagonista e a quebra de paradigmas
O que diferencia o Psica de praticamente qualquer outro festival no Brasil é sua relação intrínseca com as aparelhagens amazônicas — tradição musical que remonta aos anos 1940 e que utiliza sistemas de som potentes ao ar livre para tocar carimbó, brega, tecnobrega e outras vertentes da cena paraense. Para Gerson, a programação gratuita e a aparelhagem como carro-chefe não são meras escolhas estéticas, mas ferramentas de empoderamento cultural. ‘A gente quer que o nosso público, os nossos artistas, tenham essa autoestima de chegar e falar: eu sou muito bom, eu mereço estar em vários palcos’, afirmou. Essa afirmação vai ao encontro de um debate urgente na música eletrônica e na cultura de festivais brasileira: a necessidade de dar visibilidade a manifestações sonoras que historicamente foram marginalizadas ou relegadas a espaços periféricos.
O Psica foi pioneiro em 2021 ao colocar o Crocodilo — uma das aparelhagens mais icônicas de Belém — em seu line-up, algo que na época foi visto como uma provocação sonora. Hoje, esse movimento se consolidou: grandes eventos como a Virada Cultural e o Carnaval de Belém passaram a incorporar aparelhagens em suas programações. ‘Antes, esse movimento era relegado à periferia… a gente traz para quebrar esse paradigma’, disse Gerson. O impacto dessa decisão vai além do festival: o Psica ajudou a legitimar uma cena inteira perante o mercado, os patrocinadores e o grande público, abrindo portas para artistas que antes não tinham acesso a palcos maiores.
Um novo capítulo no Marajó: o ‘verão amazônico’
Entre os diversos projetos mencionados na entrevista, um chamou atenção especial: o anúncio de um festival itinerante no Arquipélago do Marajó, terra da família de Gerson, batizado como uma espécie de ‘verão amazônico’. A iniciativa nasceu de uma provocação da Petrobras, patrocinadora do Psica desde 2023, que desafiou a equipe a ‘nacionalizar o verão amazônico’ e criar uma nova rota turística. O evento está sendo planejado para acontecer em uma vila de apenas dois mil habitantes, com expectativa de receber um público que pode chegar a três vezes o tamanho da população local — uma aposta ousada que coloca o Psica não apenas como festeiro, mas como agente de desenvolvimento territorial e turismo cultural na Amazônia.
Além do Marajó, o Psica mantém uma agenda robusta de projetos que vão muito além do palco principal: o Círio de Nazaré, a feira de música Motins e a Aposta Psica, que conecta a cena amazônica com programadores da Colômbia, Peru, Venezuela e Caribe. Essa rede de conexões internacionais é um sinal de que o festival está construindo um ecossistema — não apenas um evento — e que a música amazônica ganha cada vez mais interlocutores no cenário latino-americano. O Psica não é só um festival: é uma plataforma de projeção cultural que está escrevendo um capítulo fundamental na história da música eletrônica e da cultura festiva do Brasil.
💡 Você sabia que as aparelhagens amazônicas — tradição musical dos anos 1940 que usa equipamentos de som potentes ao ar livre — foram pioneiras em festas eletrônicas ao ar livre no Brasil, décadas antes da popularização dos raves?
Mídia / Redes Sociais:
— Douglas W.


