Rock in Rio revela DJs que transformam escuta em ato de resistência cultural

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O Listening Club Personnalité coloca Bibi Grácio, Gustavo Keno e Yasmin Lisboa para comandar sets baseados em pesquisa, memória e representatividade dentro da maior festa de música do Brasil.

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⏱️ Em 5 segundos:

  • O Listening Club Personnalité, patrocinado pelo Itaú, leva DJs pesquisadores ao Rock in Rio com sets curados a partir de discotecas e memória musical.
  • Bibi Grácio, Gustavo Keno e Yasmin Lisboa comandam as pickups em datas específicas, dialogando com o rock nacional, a música afro-brasileira e a black music.
  • O coletivo Vitrola Aberta, liderado pelas próprias DJs, busca inclusão de mulheres na cultura do vinil e na discotecagem profissional.

O vinil ganha palco no maior festival do Brasil

O Rock in Rio está prestes a receber uma proposta que desafia o ritmo frenético que costuma definir sua programação. O Listening Club Personnalité, espaço patrocinado pelo Itaú, coloca a cultura do vinil no centro das atenções ao convidar DJs que não estão ali apenas para movimentar pistas, mas para contar histórias através de discos. Bibi Grácio, Gustavo Keno e Yasmin Lisboa aceitaram o desafio de transformar a escuta musical em uma experiência contemplativa dentro de um festival que, em sua maioria, privilegia a energia das grandes multidões.

Três pesquisadores, três narrativas sonoras distintas

Yasmin Lisboa, que acumula as funções de DJ, jornalista e pesquisadora da música brasileira, é uma das apostas mais interessantes do Listening Club. Sua discoteca transita pelo Brazilian boogie, house, disco e sonoridades nacionais, e ela já anunciou que seu set do dia 4 de setembro dialogará diretamente com o rock presente na programação do festival — mas olhando para ele pela lente da produção brasileira. Nomes como Rita Lee, Ney Matogrosso e Paralamas do Sucesso estarão presentes em sua seleção, com um destaque garantido para Fruto Proibido, álbum que ela considera um dos maiores do rock nacional e que estará tocando em sua homenagem naquela noite.

Gustavo Keno, historiador e proprietário da Ilê Discos, assume as pickups nos dias 6 e 13 de setembro com uma proposta que já é referência no circuito de curadoria fonográfica. Suas viagens de garimpo por Cuba, França, Itália, Eslovênia e Quirguistão resultaram em um acervo que investiga as musicalidades afro-brasileiras e da diáspora africana. Para ele, o Listening Club é um espaço onde o tempo se dilata: Posso escolher uma faixa pela produção, por um arranjo incomum, por um instrumento que aparece durante poucos segundos ou simplesmente porque aquele disco merece ser ouvido por inteiro, sem a obrigação de provocar uma reação imediata. No set, ele pretende destacar Lait de Coco, de Maya, do boogie francês, e obras de Bena Roberto, artista cuja obra considera profundamente subestimada.

Bibi Grácio, pesquisadora ligada à black music, ao hip-hop e à cultura do vinil, completa o trio de destaque e comanda as pickups no dia 13 de setembro. Para ela, pensar um set para um espaço de listening é, antes de tudo, tocar com o coração. A liberdade de não precisar tocar apenas hits conhecidos permite que ela mergulhe em pesquisas mais profundas e em músicas que ama, mas que nem sempre encontrariam espaço em uma pista de dança convencional. Sua linha para o Rock in Rio é groovada, passeando por clássicos do Brasil e do mundo, com uma certeza irrefutável: Alguma do rei do groove brasileiro, Tim Maia! Ele atravessa gerações, todos o conhecem e balançam com suas músicas.

Representatividade como motor da discotecagem

O que torna essa iniciativa especialmente relevante no cenário atual vai muito além da curadoria musical. Bibi Grácio, Yasmin Lisboa e Tha Redig são as fundadoras do coletivo Vitrola Aberta, projeto dedicado à inclusão de mulheres na cultura do vinil e à criação de caminhos para que DJs, colecionadoras e amantes da música se aproximem dos toca-discos com protagonismo. O coletivo nasceu da percepção de que há um desequilíbrio estrutural na ocupação feminina em espaços de discotecagem e line-ups, e busca ir além de uma simples pista de dança — é um espaço de conversa, aprendizado e acolhimento, abraçando a diversidade e a pluralidade em todas as suas dimensões.

O que o Listening Club diz sobre o momento da música eletrônica no Brasil

A presença de um espaço como o Listening Club Personnalité dentro do Rock in Rio sinaliza uma evolução importante na forma como o festival entende sua própria programação. Não se trata apenas de adicionar mais uma atração ao cartaz — é um reconhecimento de que a cultura do vinil, a pesquisa fonográfica e a discotecagem como arte têm um público e um significado que merecem visibilidade. Em um momento em que o cenário da música eletrônica brasileira vive uma efervescência de artistas independentes, selos locais e eventos dedicados à escuta consciente, o Rock in Rio, ao menos nesse núcleo, está apostando na profundidade em vez da velocidade.

Essa aposta também dialoga com uma tendência global. Festivais ao redor do mundo têm criado espaços dedicados à escuta atenta e à curadoria, fugindo da lógica de que todo set precisa ser uma sequência ininterrupta de faixas para dançar. O Listening Club Personnalité, com suas três vozes femininas à frente das pickups, reforça que a representatividade não é um detalhe secundário — é parte essencial de como a cultura musical se reconstrói e se renova. Se essa experiência se repetir e ganhar novas edições, pode abrir portas para que o festival incorpore permanentemente esse tipo de proposta em sua estrutura.

Perspectiva: o futuro da escuta no festival

O legado do Listening Club Personnalité no Rock in Rio pode ir muito além dos três dias de sets de Bibi, Gustavo e Yasmin. Ele coloca uma questão fundamental para os organizadores: se há público e sentido para uma experiência assim, por que não torná-la permanente? A cultura do vinil no Brasil está em crescimento, e iniciativas como o Vitrola Aberta demonstram que há uma demanda real por espaços onde a música seja tratada como objeto de estudo, memória e identidade — não apenas como entretenimento instantâneo. Se o festival souber ouvir, essa pode ser uma das decisões mais inteligentes da sua história recente.

Curiosidade Vibermix

💡 Você sabia que o coletivo Vitrola Aberta foi criado por Bibi Grácio, Yasmin Lisboa e Tha Redig justamente para ocupar espaços de destaque que historicamente foram dominados por homens, transformando o contato com o vinil em um ato de acolhimento e diversidade?

— Douglas W.