Péricles resgata a alma da Motown e transforma Rock in Rio em memorial do soul negro

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No Palco Sunset, o cantor paulista fez uma declaração artística e pessoal ao reinterprear clássicos de Marvin Gaye e Stevie Wonder com a dignidade que só quem entende de formação musical consegue transmitir.

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⏱️ Em 5 segundos:

  • péricles subiu ao Palco Sunset do rock in rio 2026 com o espetáculo ‘Péricles Canta motown‘, reinterpretando clássicos de Marvin Gaye, Stevie Wonder e The Temptations.
  • O cantor explicou em entrevista que a Motown e o Fundo de Quintal foram pilares formadores de sua identidade musical desde a juventude na periferia paulista.
  • A apresentação incluiu momentos de romantismo coletivo, com ‘Cruisin” gerando um clima de intimidade entre casais na plateia.

Péricles resgata a alma da Motown e transforma o Rock in Rio em um memorial do soul negro

Ninguém esperava que o Palco Sunset do Rock in Rio 2026 fosse palco de uma das declarações artísticas mais pessoais da noite até então. Péricles, nome que há décadas ecoa nos palcos brasileiros como sinônimo de autenticidade no samba e no pagode, decidiu abandonar temporariamente as canções que o consagraram para mergulhar em um território que sempre fez parte de sua formação: a Motown. No dia 7 de setembro, o cantor paulista transformou o palco em uma celebração viva da música negra norte-americana, e o resultado foi tão emocionante quanto inesperado.

A escolha de dedicar uma noite inteira à gravadora de Berry Gordy não foi casual. Em entrevista à Billboard Brasil antes da apresentação, Péricles revelou que a relação com o som da Motown remonta à sua infância, quando, em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, ouvia aquelas gravações e reconhecia nelas uma escola de respeito pela música que se equiparava — em importância — ao legado do Fundo de Quintal em sua trajetória no samba. A frase foi contundente: a Motown o formou tanto quanto qualquer escola de samba formou um pagodeiro. E isso não é exagero. São os mesmos valores de disciplina, elegância e profundidade emocional que atravessam gerações.

O repertório foi cuidadosamente selecionado para contar uma história. ‘I Heard It Through the Grapevine’, ‘My Girl’, ‘I’ll Be There’ e ‘Ain’t No Mountain High Enough’ não foram executadas como covers ou tributos superficiais. Péricles as desconstruiu e as reconstruiu com sua assinatura: a voz grave, o gingado natural e uma banda que soube acompanhar a grandiosidade das originais sem tentar competir com elas. A interpretação foi genuinamente brasileira, mas nunca perdeu a essência do soul. Foi um exercício raro de diálogo cultural, onde o pagodeiro encontra o soulman e ambos saem ganhando.

O momento mais emocionante da noite veio com ‘Cruisin”. Antes de iniciar a música, Péricles fez um pedido à plateia que rapidamente se espalhou pelas redes sociais: que todos olhassem para o seu amor e cantassem junto. O que se seguiu foi uma cena rara de vulnerabilidade coletiva em meio a um festival que, em sua maioria, privilegia a energia da massa. Casais se abraçaram, beijaram-se, e o Palco Sunset se transformou em um salão de dança dos anos 1960 — um contraponto poético ao tecido urbano e tecnológico que cerca o evento.

Além da música, o figurino de Péricles funcionou como uma extensão narrativa da apresentação. Terno de risca de giz, óculos escuros e um manto estampado com os rostos das lendas da Motown não eram apenas elementos visuais — eram uma declaração de pertencimento. O cantor não estava apenas interpretando canções; estava assumindo o manto da tradição, reconhecendo publicamente que aquelas referências moldaram quem ele é hoje. E quando questionado sobre o significado de um homem negro, cresciuto na periferia, ocupar um palco desse porte cantando os artistas que um dia o inspiraram a sonhar, a resposta foi profunda: ele se via não apenas como executante, mas como elo de uma corrente que continua a crescer.

A apresentação de Péricles no Rock in Rio 2026 acrescenta uma camada importante ao festival deste ano. Ao lado de propostas como a de Jon Batiste, que também mesclou samba, soul e balé no Palco Mundo, o evento demonstrou que a música negra americana e suas vertentes brasileiras não são mais convidadas eventuais — são protagonistas. Péricles provou que a ponte entre o pagode e o soul não é uma quebra de identidade, mas uma ampliação dela. E o público brasileiro, que lotou o Palco Sunset para ouvir um sambista cantando Marvin Gaye, deu a resposta mais clara possível: a fusão não só funciona, como faz falta em nossa cultura musical.

Curiosidade Vibermix

💡 Você sabia que Péricles foi vocalista do Exaltasamba por mais de 20 anos, período em que o grupo se consolidou como um dos maiores nomes do pagode nacional, antes de iniciar sua carreira solo e expandir seu repertório para além do gênero?


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— Douglas W.